Akillah, 13 anos.
Primeiro como tudo começou: Parapuã, 25 de março, 1998. 16:45. Eu nasci numa cidade que tem cerca de 10 mil habitantes, de uma gravidez não planejada, de um casamento a beira do abismo. Meus pais eram completamente diferentes um do outro. Eles brigavam muito, mesmo porque, não tinha apoio algum para o casamento dar certo. As duas famílias se odiavam, sem exageros. Quando eu nasci, era muito pequena e fraquinha porque desde o terceiro mês de gravidez, minha mãe começou a ter problemas de saúde e problemas pra segurar um aborto espontâneo. Elaine Cristina Menossi, 06/10/1976 – 27/10/1999. Linda, especial, importante, impaciente, fofa, dedicada, orgulhosa, teimosa, responsável, cheia de amigos e amada por todos. Quando eu tinha um ano e sete meses, minha mãe faleceu em um acidente de ônibus. Foi uma coisa cruel, um atropelamento estúpido que mudou minha vida por completo e que tirou a vida de uma moça de 22 anos. Desde então, passei a viver com a minha avó materna, quem sempre considerei minha mãe. Com mais ou menos dois anos e meio, começaram uma briga pra saber quem ia realmente ficar comigo e isso foi um pouco desgastante até mesmo naquela idade, mas fiquei com a minha avó-mãe. Eu cresci com pessoas que sempre tentaram suprir a falta que minha mãe fazia, com pessoas doces e queridas, com pura ausência de um pai, por causa do trabalho, amizades e compromissos sociais. Mas não fui nada feliz. Com dois anos e meio tive que fazer uma cirurgia na garganta, uma coisa não muito perigosa, mas que deixou sérias sequelas. A partir dessa cirurgia, eu passei a ter problemas pra comer, passei a vomitar sangue e a ter várias outras dores na garganta, e logo em seguida, Deus me tirou meu bisa-avô. Eu lembro como ele era. Era velhinho, delicadinho, fazia tudo por mim, simples e feliz. E como em uma “pancada” seguida, perdi meu padrinho. Isso sim me tirou toda a felicidade. Eu tinha três anos quando ele teve um infarto e faleceu. Aquilo foi como tirar meu coração a jogá-lo no lixo, Deus havia levado meu segundo pai, a pessoa que mais me ajudava. A vida também ameaçou deixar minha prima várias vezes, mas graças a Deus nunca fez isso. Com quatro anos, quase cinco, entrei na pré-escola. Foi onde comecei a sofrer bullying. Eu era como qualquer criança, era meio gordinha e por isso tinha que aguentar apelidos como “baleia, bolinha de futebol, gordinha, gorduchinha” e brincadeiras idiotas que sempre levavam ao meu peso. Na pré-escola eu comecei a apanhar também. Quase todos os dias eu apanhava de um menino ou de uma menina, mas isso nunca me incomodou muito, talvez pela inocência que uma criança trás no coração. Eu apenas chorava, nada mais, e assim passei meus dois anos de pré-escola. Quando entrei na primeira série e mudei de escola, as coisas ficaram um pouco mais sérias. Em casa eu tinha total apoio para estudar, dar o meu melhor e me destacar na escola, então sempre fui mais adiantada, o que na época, gerou discussões entre minha professora, avó e os demais pais de alunos. O bullying continuava da mesma forma, e eu ainda não me importava com o que falavam. A mesma coisa aconteceu nos anos seguintes, até a quinta série. Na primeira série eu tive um problema sério na perna esquerda e tive que deixar de dançar balé porque minha perna não atendia mais os comandos da dança. Quando mudei de escola, na quinta série, passei a sofrer ameaças constantes, minha avó não saia do meu colégio e o meu pai não se importava, só dava atenção quando falavam sobre ele. O egoísmo do meu começou a afetar meu lado emocional e deixei de sorrir como sorria, comecei a ser mais fechada e chorava sem motivos. Na sexta série, o bullying passou a ser mais agressivo. Eu havia emagrecido, é verdade, mas com a minha idade e precedentes que tenho na família, comecei a sofrer com acne. É algo comum, todos sabem, e nem era tanto assim, era pouco visível. Mas era o bastante pra gerar piadinhas e mais piadinhas. No começo eu tentava ignorar, levava o ar de superioridade que sempre me ensinaram a ter, mas começou a doer de verdade. Eu reclamava em casa, mas ninguém fazia nada, até que resolveram juntar todos os problemas e “jogar” na minha cara. Eu sou descendente de italianos e sou bem branca, o que também, por algum motivo racista, gerava piadas. Logo no começo do ano, tentei falar com meus pai ou minha avó, mas parecia que já não importava mais. Na diretoria do colégio, nada era visto como racismo, mas sim como frescura da minha parte. Eu tolerei muita coisa, durante muito tempo, até que abusaram demais. Eu fui humilhada inúmeras vezes, dentro da sala de aula ou fora. Em um dia de aula, um “amigo” meu resolveu dizer pro colégio inteiro segredos que sabia sobre mim, contou a todos meus apelidos e me segurou no palco do colégio para que todos me vissem e pudessem dizer na minha cara, as coisas horríveis que pensavam a meu respeito, jogou água em mim, me xingou na frente de todo mundo, xingou minha mãe e acabou com a minha esperança de ser feliz. Eu chorei muito naquele dia. Voltei pra casa arrasada. Me tranquei no quarto e só conseguia chorar. Foi então que comecei a me cortar de verdade. Naquele dia eu peguei uma tesoura afiada e risquei todo meu braço até sangrar. Foi o primeiro corte sério que fiz. no dia seguinte, não fui pra escola. Demorei mais de uma hora pra convencer minha avó de que estava doente, já que tudo o que eu falava, era frescura, optei pela falsa doença. Mas minha “doença” se prolongou. Eu passei quase uma semana sem ir ao colégio, não saía de casa, não falava com ninguém, não comia e mal ligava o computador. Quando fui obrigada a voltar a ir, o egoísmo do meu pai entrou no meio. Ele sempre foi totalmente egoísta, mas sempre pensava em mim, sempre. Até começar a namorar. Com o namoro, eu deixei de “existir” e no colégio, todos tinha verdadeira paixão em dizer que eu estava sendo trocada ou abandonada, o que de certa forma, era verdade. No final do ano, meu pai procurou a diretoria do meu colégio, fez um “show” e tanto, mas tinha só mais uma semana de aula. Em 2010 também, perdi meu melhor amigo e meu ex namorado. Eu me sinto culpada pela morte dos dois, mesmo que ninguém possa evitar coisas assim. Eles começaram a me fazer falta e eu continue me cortando. E em fevereiro tudo recomeçou. Meu pai teve uma briga feia com o meu tio e a minha família se dividiu em dois de novo. Eu passei a ser chamada de gorda, no colégio e todos os dias, alguém conseguia inventar mais alguma coisa sobre meu peso, então parei de comer e tive um sério distúrbio alimentar, algo que ainda estou corrigindo. Comecei a ficar magra demais, perder muito peso, e isso gerou piadas, foi aí que passei a me cortar com frequência. As coisas tendem a piorar na minha vida. Perdi minha única amiga por causa de garotos. Garotos que eu nem conhecia pessoalmente, na verdade. Hoje ela faz parte das pessoas que falam mal de mim a todo instante. Eu tenho medo de entrar na minha sala de aula e daria qualquer coisa para mudar de escola, de novo. Não tenho sequer um amigo verdadeiro, ou uma pessoa que consiga conversar comigo sem rir de mim, após cinco minutos. As pessoas que antes eram meus amigos, hoje, me chamam de falsa. E sabe, isso dói. Eu choro muito a noite. Por que? Pelo simples fato de tentar fazer com que minha avó não perceba o quanto isso dói, ou o quanto a ausência da minha mãe, me machuca. Eu já tomei remédios fortes, escondida de todos, para que um efeito colateral seja fatal, mas nada aconteceu. Já cortei veias, tomei coisas ácidas, mas não tive resultado algum. Sou fraca, sofro por tudo o que acontece no mundo. Odeio sair de casa e tenho medo de ficar muito tempo perto de pessoas que não conheço. Semana passada, me tiraram um outro amigo e eu me senti completamente culpada. Pensei em suicídio nessa mesma semana, mas por mais que doa, eu sei que consigo superar. Eu tenho 13 anos, tenho depressão, sofro de bipolaridade, tenho asma e outras doenças que são até mortais. Mas sabe, mesmo com isso acontecendo, eu agradeço a Deus por estar viva.
Se você leu até o final, obrigada, de coração, isso é muito importante pra mim.Apenas quero que saiba que se você sofre bullying ou tem problemas na família, não deve sob hipótese alguma se cortar ou se machucar, não deve guardar isso.
Retirado do tumblr de Akillah.